Halloween turminha Waldorf 2015

A Essência do Dia das Bruxas

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Halloween, ou Oíche Shamhna, em irlandês, era um momento muito sagrado para o povo celta e pré-celta da Europa. A data celebrava o início do ano celta e era uma das 8 festas anuais. Antes da chegada do Cristianismo, celebraram os solstí- cios, os equinócios e as seguintes quatro datas entre solstício e equinócio: no 1º de novembro, a festa de Samhain, no 1º de fevereiro, a festa de Imbolc, no 1º de maio, a festa de Bealtaine e, no 1º de agosto, a festa de Lughnasa. Na língua irlandesa, até hoje, os meses de novembro, maio e agosto ainda levam os nomes destas festas.

A entrada de uma tumba de passagem no importante morro de Tara, na Irlanda, está alinhada com o nascer do Sol no dia de Samahain, no 1º de novembro, sugerindo que esta data era importante para o povo irlandês desde a construção da tumba, há aproximadamente 5000 anos.

Novembro é o começo do inverno intenso na Irlanda. O ano celta começava no inverno, num momento de interiorização, como a vida da semente começa na escuridão da terra e a vida de uma pessoa começa na escuridão da barriga. As festas também começavam na escuridão, na véspera da festa. Por esse motivo, a festa de Samhain era celebrada na noite anterior, na noite de 31 de outubro.

Nessa noite, se dizia que o véu entre este mundo e o mundo espiritual era muito fino e os mortos e os bruxos saíam dos cemitérios e vagavam pela comunidade. A maioria das pessoas sensatas ficava em casa nessa noite, rezando e cantando pelos antepassados e ancestrais, mas quem tinha que sair, se vestia de morto ou bruxo para não ser notado pelos bruxos e mortos e levados embora junto. Um bruxo ou morto batendo na sua porta tinha que receber alguma comida ou doce para não amaldiçoar a casa para o ano que estava começando. Sendo o ano novo, era um momento de adivinhar o futuro.

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Com a chegada do Cristianismo, várias destas festas pagãs foram aproveitadas e transformadas em festas cristãs. O solstício de inverno, por exemplo, virou Natal, o solstício de verão virou a Festa de São João. A festa de Samhain, do dia 1º de novembro, virou Dia de Todos os Santos e Dia de Finados, celebrados nos dias 1 e 2 de novembro no calendário cristão. Dia de Todos os Santos, na língua inglesa, é chamado de All Hallows. A véspera desta festa em inglês é chamada de Halloween. Em irlandês é chamada de Oíche Shamhna; literalmente a véspera da festa de Samhain.

Eu vivenciei Halloween ou Oíche Shamhna na minha infância na Irlanda nos anos 80. Era a minha festa predileta. Não tinha o ritmo seguro, familiar de Natal ou de Páscoa. Os adultos estavam presentes, mas na periferia. Era festa de fantasias de bruxos, fogueiras altas, fogos de artifício explodindo na total escuridão, brincadeiras com maçãs, sapequices, bolos com surpresas, doces abundantes e no fim da noite, estórias de pavor contadas em voz baixa.

Anoitecia cedo nessa época do ano, por volta de 17 horas. Era a única noite que a gente podia sair na rua no escuro com os amiguinhos, indo de casa em casa pedindo balas e doces aos vizinhos. Até hoje, a lembrança me traz uma luz tenebrosa para a cabeça, um gosto grudento de doce na boca e o frio de pavor gostoso na barriga.

Já nos anos 80, na Irlanda, a festa pré-celta de Oíche Shamhna estava sendo substituída por uma versão mais comercializada dos imigrantes irlandeses e britânicos no Norte da América. No século XIX, exportamos um terço de nosso país para os Estados Unidos, junto com nossa festa e, no século XX, importamos nossa festa revisada e comercializada. Já na minha infância, as histórias de pavor estavam dando lugar aos filmes de terror, as lanternas de nabos estavam virando lanternas de abóbora, que não são nativas da Irlanda nem Grã-Bretanha, e as fantasias de bruxos estavam se transformando em fantasias de super-heróis e cantores famosos, perdendo seu elo com o significado original.

Em 2013, passei o ano na Irlanda com os meus filhos, que nasceram todos fora da Irlanda e vivenciaram um Halloween irlandês pela primeira vez. Estava junto uma simpática família brasileira da escola Anabá, que estava fazendo intercâmbio no país. As lojas, na época, estavam cheias de fantasias plásticas, cestas plásticas para pedir doces aos vizinhos, pacotes enormes de doces para dar para as crianças e filmes de terror para fechar a noite. Uns dias antes de Halloween, esculpimos juntos abóboras para decorar a entrada da casa. No dia, compramos doces e nozes para dar para quem ia bater na porta e também “bairín breac” (ou bolo de surpresa) para comer em casa. No bolo, se encontra surpresas como anéis, que prometem casamento para quem achar e pauzinhos, avisando da pobreza iminente. Cozinhamos bolinhos, desenhando esqueletos em cima deles, preparamos as fantasias das crianças. No início da noite, acendemos uma vela para os membros da família que já morreram e quando a escuridão caiu, saímos na rua para as crianças pedirem doces na vizinhança.

A gente morava num lugar muito rural e a escuridão da noite era impressionante. Nós, adultos, caminhamos até os portões dos vizinhos com as crianças. Vários vizinhos não tínhamos conhecido ainda nos 6 meses que estávamos morando lá. As crianças foram sozinhas, sem os adultos, até as portas das casas. Eram tímidas, no início, mas depois tomaram coragem e bateram na porta dos vizinhos. Depois de falar ´doces ou travessuras´, cantaram uma canção (em português) para os vizinhos e ganharam uma sobrecarga de doces. Em algumas casas, ganharam dinheiro, em vez de doces. A animação deles era palpável. Passamos por um cemitério e, com medo e respeito na barriga, alguns entraram lá, como ato de coragem. Voltamos para casa e brincamos com maçãs penduradas por uma corda do teto. Com os braços amarrados atrás do corpo, cada criança tinha a chance de pegar a maçã na boca, acompanhados pelos gritos e risos de todos na sala. Depois, enfiaram seus rostos num balde de farinha que escondia moedas e tentavam pegá-las na boca. Moedas ganhadas, todas com rostos brancos de farinha e com riso nos olhos, as crianças sentaram no sofá para ouvir uma vizinha amiga ler uma estória de pavor para
eles.

Dormimos todos com a sensação da proximidade palpável do mundo espiritual e com sonhos de desafios e coragem.
Percebi que o Halloween ou Oíche Shamhna, como o Natal ou a Páscoa, ainda pode ser vivenciado na sua essência, apesar da enorme comercialização que rodeia as festas hoje em dia. Basta vivenciar internamente a festa, deixar borbulhar em nós mesmos e proporcionar sensações, brincadeiras e histórias vivas para nossos filhos. Não chega a ser igual ao que era em outra época, mas conseguimos dar vida a sua essência. Para mim, no Halloween, isso quer dizer que reconhecemos a continuação da vida após a morte, da existência e envolvimento do mundo espiritual nas nossas vidas, que saudamos e incluímos nossos antepassados e ancestrais, que fortalecemos laços da comunidade e que exercitamos a coragem.

A origem de Halloween me parece semelhante à origem indígena do famoso festival do Dia dos Mortos, no México e América Central. Aparentemente, essa festa era celebrada pelos Maias e outros grupos indígenas durante o mês de agosto. Com a colonização, no século XVI, foi integrada ao Dia de Finados da igreja católica.

No Brasil, a festa Quarup é celebrada na Amazônia em agosto ou setembro e é também um equivalente indígena ao Dia dos Finados católico, uma festa para homenagear os mortos. No Brasil, principalmente no Nordeste, também tem a festa de Cosme e Damião, que lembra o Halloween, com a prática das crianças saírem nas ruas e receberem doces. Na igreja católica e em religiões afro-brasileiras, a festa é celebrada no final de setembro. A origem dessa festa, porém, é a celebração dos dois médicos que ajudaram aos pobres e foram mártires da Igreja Católica na Ásia Menor, no século III. A festa chegou ao Brasil no início da colonização e é celebrada na Igreja Católica aqui 11 até hoje e foi integrada às religiões afro-brasileiras. Os doces são dados para pagar promessas aos santos ou praticar a caridade. Este motivo difere muito do motivo de oferecer doces durante Halloween, que era visto originalmente como uma forma de se proteger dos bruxos e mortos que vagavam pelas ruas na noite de Halloween.

No sul do Brasil, o Dia dos Santos e o Dia de Finados são celebrados desde a chegada do catolicismo, com os colonos no século XVI. Estes dias são celebrados com missas e com a tradição de arrumar e enfeitar os túmulos com flores e velas e celebrar a memória dos entes queridos que morreram. Sob a influência dos Estados Unidos, vejo agora a chegada, no Brasil, do Halloween ou “A Véspera de Dia dos Santos”, que é a relíquia da antiga festa pré-celta de ´Oiche Shamhna´.

Steiner indica a celebração das festas anuais cristãs para o crescimento espiritual sadio. Estas festas cristãs têm como origem as festas pagãs, aproveitadas e reinterpretadas na luz do nascimento de Cristo. ´Oiche Shamhna´ é a véspera do Dia dos Santos, mas se vier esvaziada de sentido e magia, fica mais uma desculpa para comprar fantasias e balas e copiar um estilo de vida norte-americano. Se dermos boas-vindas à sua essência, integrando-a às nossas vidas no Brasil, poderia ser uma experiência lúdica e vivencial para nossos filhos, que ensina a proximidade do mundo espiritual e a importância de honrar os nossos antepassados. Cabe a cada um de nós decidir, se fizer sentido no ritmo anual de nosso lar, se representa doce ou travessura na nossa vida familiar.

Colaboração: Manika Bébhinn Ramsay, mãe do Tom (6o ano), do Liam (3o ano) e do Eoin (Jardim)

(TEXTO RETIRADO DO COLIBRI –  BOLETIM DA ESCOLA WALDORF ANABÁ – SÃO MICAEL – 2015)